Quando a TV Tupi colocou as primeiras imagens no ar em 1950, era difícil imaginar o que a televisão brasileira se tornaria. Das novelas que emocionaram o público ao sinal digital, a TV no Brasil sempre soube se reinventar. Agora está prestes a cruzar mais uma fronteira e promete transformar a tela em uma experiência mais imersiva e hiperconectada.

O que é a DTV+?

A TV 3.0, também conhecida como DTV+, é a evolução da TV digital e marca a entrada definitiva da TV aberta na era digital conectada. Segundo a engenheira eletricista Carolina Duca, diretora de Infraestrutura e Telecom da Globo, o modelo combina a transmissão tradicional com a conectividade à internet, permitindo entregar experiências mais personalizadas e interativas para cada usuário.

Na prática, isso significa avanços na qualidade de transmissão que pode chegar a 8K, áudio imersivo e novas possibilidades de interação, como a escolha de diferentes áudios ou câmeras durante uma transmissão esportiva. O consumo de conteúdo se torna mais dinâmico e participativo, dando ao espectador maior controle sobre sua experiência, sem abrir mão da simplicidade, do alcance e da gratuidade da TV aberta.

O Brasil na vanguarda da América Latina

O Brasil desponta como o primeiro país da América Latina a adotar o ecossistema tecnológico da TV 3.0. Em abril de 2025, a TV Globo ativou a primeira estação piloto de DTV+ no Rio de Janeiro, transmitindo conteúdo experimental para aparelhos selecionados. Em seguida, a tecnologia foi testada na cobertura ao vivo do Rock in Rio. Em junho, começaram transmissões comerciais durante a Copa do Mundo. A estimativa é que a nova tecnologia esteja disponível nas principais capitais até 2030.

Baseada no modelo internacional ATSC 3.0, a DTV+ foi desenvolvida no Brasil e consiste em um dos sistemas mais avançados de transmissão digital do mundo e as inovações feitas aqui já começaram a ser refletidas em outros países.

A tecnologia por trás da DTV+

A DTV+ introduz uma arquitetura híbrida, com transmissão broadcast combinada a redes IP, além de uma nova tecnologia de modulação conhecida como Multiple-Input Multiple-Output (MIMO), que duplica a capacidade do canal, proporciona compressão mais eficiente e entrega de conteúdo aderente aos modelos das principais plataformas digitais.

Do ponto de vista da infraestrutura, a complexidade é grande. O engenheiro eletricista Iran Costa Lima, supervisor técnico da TV Tem de Sorocaba, destaca que a transição vai exigir atualizações significativas em toda a cadeia de transmissão e recepção. As emissoras precisarão instalar codificadores que suportem o padrão Versatile Video Coding (VVC), transmissores e sistemas irradiantes para aumentar a robustez e confiabilidade do sinal, além de sistemas de computação eficientes para inserir informações extras na transmissão. O tráfego de conteúdo complementar também vai demandar aumento nas estruturas de rede IP.

O papel da Engenharia na transição

A implementação da DTV+ traz uma série de oportunidades para a Engenharia. Há demanda crescente por conectividade, integração com redes IP, edge computing e suporte a aplicações interativas. Para a indústria nacional, surgem oportunidades na fabricação de novos receptores, desenvolvimento de aplicações, middleware e soluções de software. A tecnologia ainda cria possibilidades de novos modelos de negócio e impulsiona a inovação no setor audiovisual.

As equipes de Engenharia passam a atuar cada vez mais próximas do universo de software e serviços digitais — conectando redes, dados, aplicações e conteúdo em um ecossistema único, escalável e orientado à experiência.

A TV aberta ainda é relevante?

Com o avanço dos smartphones e das plataformas de streaming, a pergunta é legítima. Carolina Duca garante que sim. A TV aberta segue sendo o principal meio de consumo de mídia para milhões de brasileiros e o avanço do mobile não diminui sua importância, mas reforça a necessidade de evolução.

Com a transmissão em 4K ou 8K e conectividade com a internet, o telespectador terá sinal de TV e conteúdo online simultaneamente, com interatividade, votações, compras durante a programação e acesso a conteúdos segmentados.

Uma transição gradual

Assim como ocorreu na passagem do analógico para o digital a partir de 2007, haverá um período de convivência entre os dois formatos. A implementação será gradual e pode se estender por vários anos, garantindo adaptação do mercado e dos usuários.

Para o público, será necessário adquirir uma TV compatível com a DTV+ ou instalar um set top box em aparelhos antigos. A navegação seguirá uma lógica semelhante à das smart TVs e plataformas de streaming, baseada em aplicativos e interfaces intuitivas.

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