O setor sucroenergético é um dos principais pilares do agronegócio brasileiro. Com uma produção anual que supera 600 milhões de toneladas de cana-de-açúcar processadas, a cadeia produtiva nacional exige sistemas de alta complexidade tecnológica, operacional e agronômica. E é justamente nesse cenário que a presença técnica qualificada faz toda a diferença.

A força-tarefa do Crea-SP

Nos meses de março e abril de 2026, o Crea-SP realizou uma força-tarefa de fiscalização sem precedentes no setor. A operação mobilizou agentes fiscais em todo o estado para vistoriar 344 unidades sucroenergéticas, entre matrizes e filiais. A iniciativa buscou promover o desenvolvimento técnico seguro, garantir a responsabilidade profissional e salvaguardar a sociedade.

Segundo o engenheiro ambiental Kleber de Jesus Brunheira, gerente de Planejamento e Fiscalização do Crea-SP, a atuação esteve voltada à verificação da regularidade do exercício profissional, analisando se as atividades técnicas existentes estavam vinculadas a engenheiros, agrônomos, geocientistas, tecnólogos e empresas legalmente registrados, habilitados e com atribuições compatíveis, além da devida responsabilidade técnica formalizada por meio da ART.

Antes do início da operação, a área de Fiscalização e a Diretoria Técnica do Conselho uniram esforços para capacitar as equipes de campo. Segundo a diretora técnica engenheira agrônoma Gisele Herbst Vazquez, a padronização do entendimento fortalece a atuação fiscalizatória e aumenta a assertividade durante as abordagens.

O que foi inspecionado

Os agentes percorreram a totalidade do fluxo produtivo, cobrindo as mais diversas áreas das Engenharias, da Agronomia e das Geociências. O escopo das verificações abrangeu quatro frentes fundamentais.

Civil e segurança: regularidade de obras de infraestrutura, laudos de inspeção predial, sistemas de combate a incêndio e engenharia de segurança do trabalho.

Mecânica: integridade física e laudos de caldeiras, vasos sob pressão, compressores, pontes rolantes, moendas e sistemas de exaustão industrial.

Elétrica: cabines primárias, laudos de conformidade, geradores e Sistema de Proteção contra Descargas Atmosféricas (SPDA).

Agronomia e meio ambiente: planejamento de preparo do solo, plantio e colheita, uso de defensivos, receituário agronômico, projetos de irrigação, Estações de Tratamento de Efluentes (ETE) e Plano de Aplicação de Vinhaça (PAV).

As irregularidades encontradas

As principais irregularidades identificadas em campo estiveram relacionadas à falta de comprovação de manutenção periódica em equipamentos críticos, à ausência de ARTs balizadas pelas normas NR-12 e NR-13 para caldeiras, e à falta de assinatura técnica em planos de impacto ambiental direto, como o PAV.

Brunheira reforça que a ausência de um olhar técnico qualificado reverbera em toda a cadeia produtiva, gerando uma série de riscos, operacionais, ambientais e legais.

O desafio da operação contínua

Um dos maiores desafios de adequação técnica enfrentados pelo setor está na intensidade de seu regime operacional: ciclo contínuo de 24 horas por dia, sete dias por semana. Com o avanço das tecnologias de cultivo, a tradicional janela da entressafra reduziu consideravelmente. Com as máquinas operando no limite de sua exaustão mecânica, o tempo para inspecionar caldeiras, calibrar instrumentos e atualizar projetos elétricos fica reduzido pela urgência produtiva.

O engenheiro eletricista Fábio Abib, representante técnico do setor de usinas, destaca o valor prático da regularização. Ter um responsável técnico devidamente registrado no Crea-SP qualifica o quadro da usina, melhora a qualidade dos projetos e manutenções, gera segurança operacional e torna o processo de vistoria substancialmente mais rápido, além de evitar multas e desgastes institucionais.

Tecnologia a serviço da fiscalização

Para cobrir a vasta dimensão territorial paulista, o Crea-SP incorporou inteligência preditiva por meio do sensoriamento remoto por satélite de alta resolução. Segundo a superintendente de Fiscalização do Conselho, engenheira civil e de segurança do trabalho Maria Edith dos Santos, o sistema monitora continuamente as usinas, detectando automaticamente ampliações industriais, terraplenagens e obras de infraestrutura. Esses dados são cruzados em tempo real com o banco de emissões de ARTs, e caso o algoritmo identifique uma alteração física sem a respectiva ART, um alerta georreferenciado é disparado para o aplicativo dos agentes fiscais.

Engenharia como garantia de qualidade e segurança

A força-tarefa do Crea-SP no setor sucroenergético reforça um princípio fundamental: a presença técnica qualificada não é burocracia. É o que garante que um dos maiores setores do agronegócio brasileiro opere com segurança, qualidade e responsabilidade, protegendo trabalhadores, o meio ambiente e toda a cadeia produtiva.

Fonte: CREA-SP

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